Correr combate sedentarismo, promove qualidade de vida e ganha adeptos

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As fotos de pessoas sorridentes e aparentemente de bem com a vida mostradas por um amigo funcionaram como um convite à curiosidade do publicitário Magdy Selmy, de 34 anos. Ele estava em busca de alguma atividade para aumentar seu bem estar e tornar mais dinâmica a sua rotina casa-trabalho quando as imagens do amigo corredor de rua despertaram seu interesse.

 

 

Eu me questionei: ‘o que será que faz essas pessoas estarem tão felizes? Quero isso’! Na mesma hora, mandei uma mensagem para ele e fiz várias perguntas sobre corrida”, conta o publicitário que hoje treina em média dez quilômetros, três vezes por semana, no Parque da Cidade, em Brasília. Magdy já participou de mais de cem corridas de rua desde 2013.

 

Assim como Madgy, milhares de outras pessoas vêm descobrindo na corrida uma atividade cotidiana. Em 2018, 310 mil corredores completaram provas nas 50 maiores corridas de rua do país, segundo levantamento realizado por Danilo Balu, bacharel em Esporte pela Universidade de São Paulo (USP). Em 2014, o número somava 266 mil.

 

Seja pelo número de participantes em eventos, seja pela busca crescente por orientação profissional em assessorias de corrida ou pelo aquecimento do mercado de equipamento esportivo para essa prática, podemos afirmar com certa segurança que há um aumento perceptível no número de praticantes. Acredito que esse aumento é reflexo da popularização da modalidade e de suportes e possibilidades cada vez maiores para praticar corrida”, afirma Balu, que decidiu começar a correr ainda criança, inspirado pela medalha de prata nos 800m conquistada pelo brasileiro Joaquim Cruz nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988. O mesmo Joaquim Cruz foi campeão olímpico nos Jogos de Los Angeles, em 1984.

 

Contra o sedentarismo

 

Promover a atividade física regular é um desafio de grandes proporções no Brasil. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2017, 62,1% dos brasileiros com 15 anos ou mais não praticaram qualquer esporte ou atividade física em 2015. Isso quer dizer que 100,5 milhões de pessoas, de um total de 161,8 milhões nessa faixa etária, não faziam qualquer tipo de atividade física.

 

Todos os anos, segundo informações da Organização Mundial de Saúde, mais de 3 milhões de pessoas no mundo morrem por doenças que poderiam ser prevenidas com a prática regular de atividade física. O sedentarismo é considerado o quarto mais importante fator de risco de morte no mundo.

 

Um outro estudo, esse realizado pela Secretaria Especial do Esporte, chegou a resultado similar. O Diagnóstico do Esporte (Diesporte) coletou informações sobre práticas esportivas e atividades físicas relativas a 2013. Ao todo, foram 8.902 entrevistas. O resultado apontou que 45,9% da população entre 14 e 75 anos era formada por sedentários. O estudo indicou, também, que as mulheres praticam menos atividades físicas que os homens.

 

Para Balu, os eventos de corrida incentivam as pessoas a praticarem exercícios físicos e estimulam a manter a regularidade nos treinos: “A experimentação abre espaço para a pessoa vivenciar uma prática mais consistente e regular, seja da corrida, seja de outras formas de condicionamento”.

 

No mesmo tom de argumentação, Mario Sergio Andrade Silva, professor de educação física e diretor da assessoria esportiva Run&Fun, avalia que correr com regularidade oferece diversos benefícios para a saúde física e mental.

 

A corrida oferece inúmeras vantagens, como perda de peso, aumento dos músculos inferiores do corpo, aumento da capacidade cardiovascular, diminuição dos sintomas de estresse e depressão e mais disposição para o dia a dia, além de contribuir para a melhora de fatores psicológicos, como humor e sociabilização.”

 

Resultados gradativos

 

Quando começou a correr, em 2001, com a Run&Fun, Paulo Lemos, pesava quase cem quilos. Hoje, aos 66 anos e 20 quilos mais magro, o engenheiro e advogado conquistou uma vida melhor e mais saudável: “Emagreci gradativamente, controlei as taxas de colesterol, meus batimentos cardíacos ficaram mais baixos e minha capacidade funcional e disposição aumentaram. Além disso, a corrida trouxe para a minha vida novas amizades de diferentes faixas etárias, viagens nacionais e internacionais, aumento de autoestima e uma sensação de realização pessoal”.

 

Lemos já participou de mais de cem corridas de rua, sendo sete maratonas e 20 meias. Correr a Maratona de Nova York era seu maior sonho, realizado em 2009. “Foi um batismo de fogo numa das mais difíceis maratonas internacionais”, lembra Lemos, que chega a percorrer em média 40 quilômetros por semana divididos em cinco treinos realizados no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, e na USP.

 

Outro benefício interessante da corrida é o estímulo à concentração, principalmente em meio ao cotidiano acelerado nas grandes cidades, aponta Márcia Rosa, professora de educação física e empresária. “Um dos primeiros benefícios da corrida é a concentração. A atividade exige isso, algo tão difícil hoje em dia, nessa vida agitada que a gente tem”, ressalta a professora, que corre há dez anos e criou uma assessoria esportiva dedicada à corrida depois de cumprir com dificuldades os dez quilômetros de uma prova: “Não praticava corrida por causa da asma, mas ao receber um convite de um aluno, vi uma oportunidade de quebrar esse paradigma. Foi sofrido. Cheguei a ficar com ódio de corrida. Mas, depois, gostei e percebi que se eu, formada na área, tive dificuldade, outras pessoas também poderiam ter”.

 

Praticar a corrida como uma oportunidade de se concentrar no movimento e se desligar do mundo também foi importante para Selmy conquistar o bem estar que tanto procurava. “Parei de correr ouvindo música e comecei a prestar mais atenção ao meu corpo durante o treino: a pisada, a respiração, a postura. Daí em diante tudo foi fazendo cada vez mais sentido e ficando mais leve e prazeroso”, conta o publicitário. “O interessante é que os benefícios da corrida, tanto os físicos como os mentais, não vêm de imediato. É preciso se conectar de alguma forma com o exercício. No meu caso, as provas de corrida testaram meus limites e me trouxeram entendimento, amadurecimento e, principalmente, grandes amizades e experiências incríveis”.

 

Dicas para começar

 

Se você também quer calçar um par de tênis e sair por aí correndo, é importante começar devagar e procurar profissionais especializados, como médicos para avaliar a saúde e fazer um check-up, professores de educação física para ajudar a montar os treinos e nutricionistas para uma reeducação alimentar. Confira algumas dicas de quem corre e está acostumando a auxiliar outros corredores:

 

Antes dos treinos, o corredor deve priorizar alimentos como frutas, sucos naturais e pães, explica a nutricionista Simone Rocha, especializada em nutrição funcional e esportiva. “A alimentação antes da prática da corrida deve ser rica em energia de rápida absorção e em carboidratos simples e complexos. Já os alimentos gordurosos ou com muitas fibras devem ser evitados nos momentos anteriores ao exercício”.

 

Para repor as energias, a hidratação é fundamental. “A água de coco vai muito bem após a corrida, assim como frutas e carboidratos. Uma boa opção é massa com molho pomodoro ou à bolonhesa”, sugere Simone.

 

Em caso de maratonas, a nutricionista recomenda um planejamento específico. “Os maratonistas devem fazer um planejamento dietético não só para a prova, mas para as fases de treinamento. Como estratégia de reposição de energia e eletrólitos durante a corrida, o atleta pode utilizar gel de carboidrato e bebidas isotônicas”, indica.

 

* Isabela Guerreiro, especial para a Secretaria de Esporte do Ministério da Cidadania

Escrito por Leandro Bollis
Ter, 05 de Fevereiro de 2019 10:36